selo.jpg (4282 bytes) Data: 18.01.2004

Texto: Rogério Hayama / Edição: Herr Phillip


Como escolher seu Santana 

Muitas pessoas conhecem as dicas para escolher um bom carro usado. Mas, existem algumas sugestões a respeito do Santana, pois muitos que não possuem familiaridade com o carro desconhecem. Portanto, aqui vão algumas dicas que certamente ajudarão aos futuros proprietários do Santana a comprarem um bom carro usado.

Parte mecânica

 1- AR-CONDICIONADO - Ao analisar o carro, peça para dar a partida e teste o sistema de ar-condicionado. Se o ar não estiver refrigerado em 30 segundos nos difusores, provavelmente há uma avaria no sistema (no caso de Santanas com correia Poli-V, a partir de 1996) ou então a correia do ar-condicionado foi desligada (nos modelos anteriores a 1996). É uma oportunidade de pedir um desconto de no mínimo R$ 500,00 (um sistema de ar-condicionado valoriza o carro em R$ 1000,00), pois os reparos no sistema de ar-condicionado costumam ser caros. Uma revisão geral não sai por menos de R$ 130,00 (R$ 100,00 de recarga + R$ 30,00 do contraste), se alguma mangueira estiver danificada o conserto é simples, mas se o problema for no selo do compressor, prepare-se para gastar um pouco mais. Não é um problema crônico do Santana, mas sim de sistemas de ar-condicionado que ficam sem uso por muito tempo, em qualquer automóvel, de qualquer marca.

2- MOTOR - Passe o dedo na ponta do escapamento. Se estiver oleoso, o motor está queimando óleo. O ideal é que saia uma poeira preta e seca, sem umidade.

3- LUBRIFICAÇÃO - Procure por vazamentos de óleo junto ao cabeçote. É muito comum o respiro de óleo entupir e o óleo acabar saindo pela tampa de válvulas, caindo em cima do coletor de admissão, o que deixa o motor sujo e com cara de “cansado”. Nos motores movidos a álcool, é comum a formação de uma “gelatina” branca no bocal do óleo lubrificante a na vareta, o que é perfeitamente normal. Nos motores movidos á gasolina, o óleo deve estar escuro, o que indica carbonização e é perfeitamente normal. Um óleo com aparência de novo denuncia uma troca recente, talvez para mascarar um defeito.

4- CABEÇOTE - Dê a partida. Nos modelos equipados com carburador, fique atento ao som das válvulas no cabeçote, um “plec-plec” muito exagerado denuncia que as válvulas precisam ter sua folga regulada. Nos modelos injetados, o cabeçote usa tuchos hidráulicos, que podem “bater” um pouco nos primeiros segundos. Essa batida do tucho não deve durar mais do que 1 ou 2 segundos, se demorar mais do que isso, provavelmente os tuchos precisam ser substituídos, ou pior ainda, o proprietário adicionou um óleo muito grosso para esconder o desgaste excessivo do motor. Neste caso, a bomba de óleo sofre para lubrificar adequadamente o cabeçote e os tuchos demoram a carregar. Na dúvida, coloque uma chave de fenda grande apoiada na tampa de válvulas, encoste o ouvido no cabo e “ouça” o funcionamento do cabeçote, como se fosse uma espécie de estetoscópio.

5- RUÍDOS – Deixe o motor alcançar a temperatura normal de operação. Então, acelere um pouco e veja se não existem ruídos metálicos anormais (o famoso “rajado”), que são indicadores de desgaste excessivo e também de manutenção deficiente. Uma aceleração progressiva e vagarosa pode ser feita até o limite de corte da injeção nos modelos injetados (e mesmo nos carburados, mas com bom senso). Em qualquer modelo (carburado ou injetado), acelere e tire o pé do acelerador, veja se o motor não “fuma” (produz fumaça branca em excesso). Fumaça branca indica que o óleo lubrificante está sendo queimado, por causa de retentores de válvulas gastos, um trabalho de fácil solução. Fumaça azulada indica um problema sério de vedação e indica que o motor sofre de “blow-by” (o óleo consegue passar pelos anéis e entra na câmara de combustão).

6- EMBREAGEM - Verifique a força necessária para acionar a embreagem. Nos modelos equipados com motor 1.8, o pedal costuma ser macio por causa do platô mais fraco, mas nos modelos 2.0 o pedal costuma ficar muito duro com o uso, pois o acionamento é mecânico, por cabo. Um pedal macio nos modelos 2.0 indica que o sistema de embreagem foi revisado (ou apenas o cabo trocado). Com o carro parado, engate uma terceira marcha, acelere até 2000 rpm e vá soltando o pedal da embreagem aos poucos. O motor deve apagar, do contrário, a embreagem está gasta ou comprometida. Verifique também o rolamento, com o carro em marcha lenta

7- CÂMBIO MANUAL - Os engates do câmbio manual devem ser macios e precisos, como em todo VW. Marchas difíceis de entrar (sobretudo a primeira, em marcha-lenta) indicam problemas no trambulador e/ou sincronizadores gastos. Peça para dar uma volta com o carro e passe as marchas com rapidez e agilidade, se você sentir alguma engrenagem tentando “morder” a alavanca ou qualquer arranhada, provavelmente os sincronizadores necessitam de substituição.

8- TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA - Nos modelos equipados com câmbio automático, verifique se o câmbio não patina demais. Se estiver patinando, os discos estão gastos ou o fluido foi trocado recentemente, o que geralmente piora o desempenho quando não é feita uma revisão completa. Deve haver um leve “creeping”, ou seja, o carro deve andar bem devagarinho ao colocar a alavanca em “Drive”, com o freio solto, o suficiente para efetuar manobras de estacionamento. As trocas devem ser suaves, sem trancos.

9- DIREÇÃO HIDRÁULICA - A direção hidráulica do Santana não costuma apresentar problemas, mas pode haver vazamento de óleo ATF na cremalheira, junto á parede de fogo do veículo. Nestes casos, só mesmo abrindo a caixa de direção e trocando o conjunto de selos (e também o telescópio se estiver riscado), um serviço que custa em torno de R$ 400,00. Não raro o óleo ATF vaza e acaba sujando o câmbio, confundindo quem olha o carro por baixo. Não se preocupe com o "chorinho" que a DH do Santana faz, é perfeitamente normal. Apenas evite esterçar a direção até o final do batente, recomendação para qualquer sistema de direção hidráulica.

10- SUSPENSÃO – Abra o capô e veja o estado dos batentes superiores da suspensão, localizados no alto das torres. Um batente baixo, rente á superfície da torre é um bom sinal. Batentes que estejam deslocados muito pra cima necessitam de troca.

Se possível, levante o carro em um elevador e, com uma chave de fenda, force as buchas das bandejas da suspensão. Não deve haver muita folga. Verifique o estado geral do agregado (subchassi), pois muitas batidas ou defeitos na suspensão causados por “crateras” podem ser identificados ali.

O eixo traseiro é do tipo semi-independente, simples e robusto, que quase não necessita de manutenção, já que as buchas são projetadas para durar toda a vida útil do carro. Se possível, verifique apenas o alinhamento do eixo traseiro, a geometria do eixo traseiro do Santana e derivados não é regulável, logo, um eixo de torção desalinhado necessitará de troca.

Confira o estado dos amortecedores balançando o carro. Dê uma balançada para baixo, firme, e veja se o carro oscila muito. O ideal é que o carro desça com o empurrão, suba e se estabilize. Se o carro oscilar demais os amortecedores estão gastos.

11- FREIOS – Verifique o nível do fluido de freio e a altura do pedal do freio. Pedal baixo demais indica desgaste acentuado das pastilhas e lonas. Dê uma volta com o carro e procure vibrações no volante durante a frenagem (discos empenados), rumorosidade e chiados (pastilhas gastas) e um certo “vaivém” na frenagem (tambores de freio ovalizados). Por falar em pedais, verifique o desgaste dos mesmos, carro pouco rodado não combina com pedais muito gastos.

12- PNEUS – Dê sempre preferência a um carro com 4 pneus da mesma marca e modelo, o que indica um certo zelo por parte do proprietário. Admita no máximo dois pneus iguais em cada eixo, mas nunca dois pneus diferentes em cada eixo. Dê prioridade para pneus de marcas conhecidas e tradicionais (Pirelli, Goodyear, Firestone, BF Goodrich, Toyo, Yokohama, Michelin, Dunlop, etc...). Pneus de marcas desconhecidas ou com a lateral raspada podem esconder os famigerados pneus recauchutados ou remoldados. 

Acabamento

1- Nos Santanas e Quantuns anteriores a 1990, é muito comum ver a forração do teto se descolando, problema que foi sanado nos modelos 1991 em diante, bem como na linha Versailles/Royale.

2- No caso da Quantum e da Royale, verifique se a persiana sanfonada do porta-malas está perfeitamente encaixada. Preste atenção também nos porta-trecos laterais, onde ficam guardados o macaco, o triângulo de segurança e a chave de roda (do lado direito) e o reservatório do limpador de pára-brisa traseiro (do lado esquerdo). Se estiverem folgados, serão fonte constante de barulhos.

3- Painel com difusores de ar quebrados, teclas afundadas, bancos rasgados ou tortos, pára-choques tortos e ralados, grade mal colocada, faróis e lanternas mal fixados ou trincados são péssimos sinais. Já dá para ter idéia de que forma o antigo proprietário cuidava da parte mecânica. Um proprietário cuidadoso cuida tanto da parte mecânica quanto estética.

4- O revestimento em curvim das laterais de porta costuma se descolar quando o carro é deixado ao sol por longos períodos de tempo. 

Lataria

1- Um problema crônico do Santana após 1991 e a linha Versailles é a infiltração de água no porta-malas, pode estar presente em automóveis que sofreram uma colisão traseira e que ficaram com a vedação ineficiente. Abra o porta-malas e verifique se existe umidade e cheiro de mofo. Se houver, atenção! Pode ainda ser uma borracha de vedação desgastada ou a tampa do porta-malas mal regulada. Lembre-se também de retirar os painéis laterais e verificar se não existe água no compartimento do macaco e na caixa do estepe. Aliás, na caixa do estepe existe um furo, o qual nunca deve estar obstruído. Na dúvida, não arrisque;

2- Observe o carro por baixo e veja se não há sinais de retoques e consertos malfeitos. Abra o capô e verifique se o painel dianteiro é original e se sua solda com os pára-lamas é bem feita (os famosos “macarrões”). Um “macarrão” mal feito é quase sempre sinônimo de batida na dianteira.

3- Descarte veículos que apresentam lataria ondulada e diferenças de alinhamento nas portas. São claros sinais de que o carro foi reparado às pressas numa “boca de porco”;

4- Levante os tapetes de borracha e observe se o carpete apresenta sinais de umidade. Em caso afirmativo, descarte o carro imediatamente. Uma exceção: se o carro tiver ar-condicionado, ligue-o por uns 15 minutos e veja se não há gotejamento na parte inferior direita do painel (o lado do passageiro). Se houver, a solução é simples: basta mandar limpar o dreno do ar-condicionado, que certamente está entupido.

5- Com uma flanela, passe um imã forte sobre a lataria do carro, procurando pontos com massa plástica.

6- Veja a posição dos emblemas e logotipos. Emblemas fora de lugar ou desalinhados quase sempre indicam um serviço de funilaria.

 Dicas gerais

1- Não tenha pressa. Encontrar um carro usado em bom estado não é tarefa das mais fáceis. É melhor ter paciência para não acabar ficando com uma “bomba” nas mãos.

2- Estabeleça uma preferência no que diz respeito a motorização (1.8 ou 2.0), combustível (gasolina ou álcool), e equipamentos (ar, direção, trio elétrico, etc...). É só ter paciência que é possível encontrar um carro que atenda às necessidades. Só abra alguma exceção se já estiver há muito tempo procurando e então encontrar um carro que esteja absolutamente impecável e por um preço justo.

3- Procure um carro que esteja com todas ou a maior parte de suas características originais. É difícil, mas não impossível. Cuidado com acessórios não-originais. É comum encontrar veículos com vidros elétricos adaptados, por exemplo, cujas teclas de acionamento ficam se soltando das portas.

4- Tenha em mente que os valores que estão publicados nas tabelas são valores médios de comercialização. Vale a pena pagar a mais para ficar com um carro bem conservado;

5- Não desanime! Quando menos se espera, o carro ideal aparece! Tanto é verdade que contarei a seguir como encontrei o meu carro, um Versailles GL 2.0 a álcool modelo 1993, com ar e direção. 

Encontrando o carro ideal

Tudo começou no final de 2002. Procurava por um Santana ou Quantum com motor 2.0 a álcool com ar-condicionado e direção hidráulica. Se o carro fosse um Santana, a prioridade seria um modelo duas portas. O único quesito que não abriria exceção em hipótese alguma seria o combustível. Para mim, carro tem que ser a álcool.

Já tinha em mente que não seria nada fácil encontrar um carro que me agradasse, mas não imaginava que seria tão difícil como foi. Comprava diversos jornais, procurava os anúncios, ligava, combinava de ir ver o carro... Perdi a conta de quantas vezes desperdicei o meu tempo. Não engulam essa história de que o carro está “impecável”, que “não há nada para se fazer” e que “é só ligar e viajar”. Carro usado, por melhor que esteja, sempre tem algo para ser feito.

Cansado de ver tanto ferro-velho, resolvi abrir o leque de opções para ver se a busca ficaria um pouco mais fácil. Incluí também o Versailles e a Royale como alternativas de compra. Não ajudou muito, mas não desisti. Acho que olhei mais de 30 carros até conseguir achar algum que me interessasse. Para se ter uma idéia, desses 30, somente três (isso mesmo: três!) mereceram uma examinada mais detalhada. O primeiro, foi uma Royale GL 1.8 92. Preta, estava em excelente estado de conservação. Bancos originais e perfeitos, detalhes de acabamento igualmente perfeitos, motor aparentemente em boas condições, lataria lisa e sem sinais de batidas, rodas BBS... Enfim, o carro era lindo. O preço estava bom (R$ 7.600,00). Só que o carro não tinha ar e nem direção hidráulica! Descartei.

O segundo, foi um Santana GL 2000 93. Completo, era vinho metálico e estava bem conservado. Tinha alguns detalhes, como teclas do desembaçador e pisca-alerta afundadas. O preço era justo (R$ 9.000,00), só que ao abrir o porta-malas, verifiquei que o compartimento lateral esquerdo estava cheio de água. Embora não tendo sinais de batida, resolvi não arriscar e descartei. Cuidado com carros que entram água! Você pode estar adquirindo uma tremenda dor de cabeça...

O terceiro, aliás, o meu atual carro, foi encontrado de uma forma totalmente inusitada. Numa bela tarde de domingo, passando em frente a uma concessionária Fiat, vi um Santana preto duas portas no setor de usados. Parei, fiz o retorno e voltei para ver o carro. O carro estava aparentemente em bom estado, ano 95 e completo. Só que o preço era um pouco alto (R$ 12.000,00) para o que estava pretendendo gastar (até R$ 10.000,00) e, ainda por cima, era à gasolina! Eis quando olho ao lado do Santana, o Versailles. Era 2.0 a álcool, duas portas e só com ar-condicionado e direção hidráulica. Do jeito que eu queria! O preço estava justo pelo estado do carro (R$ 9.500,00). Painel, estofamento e detalhes de acabamento originais e em perfeito estado. Lataria, estrutura e mecânica igualmente em bom estado. O carro pecava em apenas um único detalhe: era branco! Só porque tinha dito no dia anterior que jamais compraria um carro branco... Tive de engolir o orgulho e abrir uma exceção. O carro, apesar de ser branco, nunca tinha sido táxi. Até o toca-fitas era original e funciona perfeitamente até hoje.

Decidi que ficaria com o Versailles. No dia seguinte, voltei à concessionária e fechei negócio. Quando o adquiri, em setembro de 2003, ele estava com 134.000 km. Hoje, ele está com mais de 144.000 km e sem maiores problemas. Na parte mecânica, apenas troquei a embreagem (acredite: ainda era original de fábrica!) e demais itens normais de manutenção (óleo, velas, filtros, correias, etc.). Portanto, se depois de procurar muito, achar um carro que lhe agrade, feche negócio ou alguém o comprará antes de você. 

Um dos poucos problemas com este carro foi com o ar-condicionado, pois o proprietário anterior não o usava. Então, procurei uma empresa especializada em ar-condicionado para ver quais as peças que deveriam ser trocadas, pois o ar não gelava como deveria. Foram feitos testes e verificou-se que uma das mangueiras do sistema estava ressecada e deveria ser trocada. Fora essa mangueira também foi necessário trocar algumas peças do compressor. No total foram gastos cerca de R$ 600,00 para que o ar-condicionado voltasse à vida. Mesmo assim, o Versailles foi uma boa compra e não estou arrependido, já que a parte mecânica está em perfeito estado. Mesmo sendo branco, o carro chama a atenção nas ruas.

Seja paciente na hora de comprar um carro... Demora, mas compensa muito mais. O prazer de ter um carro desses em bom estado não tem preço!