Alemanha ou Brasil? Diferenças marcantes

Texto de Felipe Cavalcante Bitu
Imagens:
divulgação
Data:
19 de maio de 2004

Já a alguns meses, o Santana Fahrer Club estabeleceu contato com alguns membros do Passat Kartei Deutschland, um grupo alemão de entusiastas do VW Passat de primeira e segunda gerações, esta última correspondente ao nosso Santana nacional, que compartilha a mesma plataforma.

Tive a feliz oportunidade de ser o “relações públicas” do SFC, mantendo contato com Tilman Grund, proprietário de um Passat 32b (segunda geração) e de um Santana alemão, os dois em perfeito estado de conservação, sendo utilizados por Tilman diariamente.
 

Ao longo de nossas conversas a respeito dos carros, começamos a perceber diversas particularidades óbvias entre dois países completamente distintos: Brasil e Alemanha.

A primeira grande diferença: o modo de dirigir. Definitivamente, o motorista alemão pouco tem em comum com o motorista brasileiro. Como todos sabem, o motorista brasileiro é mal preparado e ao longo dos anos ao volante vai criando determinados vícios que aos poucos contribuem para o péssimo estado de conservação da frota nacional.

O brasileiro se assemelha muito ao motorista norte-americano: gosta de motores com muito torque em baixa rotação e câmbios com relações de marcha curtas, favorecendo acelerações e retomadas, com prejuízo do nível de ruído e consumo. Dirige aos trancos, passando marchas de maneira brusca e rápida, fazendo de cada semáforo uma prova de arrancada, diminuindo a vida útil da embreagem, juntas homocinéticas, suspensão e freios, dirigindo muito rápido nos centros urbanos.

É o oposto do que é verificado na Alemanha: o motorista alemão dirige calmamente pelos centros urbanos, dificilmente ultrapassando a velocidade de 50 Km/h. Tudo faz parte de normas rígidas de formação e gerenciamento dos órgãos de trânsito. As multas são pesadas e os abusos ao volante são punidos com rigor. A única semelhança com o Brasil é que lá também existe um enorme número de radares, sendo chamados por Tilman de “radar traps” (radares-armadilha).


Nas estradas a disparidade fica ainda mais marcante: enquanto o brasileiro mal preparado insiste em ocupar a faixa da esquerda a 80 Km/h, na Alemanha existem as famosas “autobahn”, estradas perfeitamente pavimentadas sem limite de velocidade em extensos trechos, funcionando como verdadeira ferramenta de marketing para a engenharia alemã, conhecida mundialmente pela precisão empregada em Audis, BMWs, Mercedes e Porsches.
 


Capa do disco "Autobahn", lançado em 1974 pelo grupo alemão Kraftwerk

Nestas estradas, o motorista alemão pode trafegar com seu Santana e desfrutar de toda a praticidade do câmbio 4+E, utilizado no Santana brasileiro de 1984 a 1986. Velocidades que variam de 130 a 200 Km/h são muito frequentes, mesmo em um pacato sedan familiar como o Santana, como pode conferir José Luiz Vieira em 1981, na revista “Motor 3”: tranquilidade, previsibilidade, controlabilidade e segurança, não importando a velocidade empregada.

O resultado todos conhecem: enquanto o Brasil é um dos líderes em mortes no trânsito, as ruas e estradas alemãs são das mais civilizadas. Os acidentes nas autobahns respondem por apenas 10% das mortes no trânsito alemão e ainda assim fica abaixo de qualquer país. Só para comparar, ma Alemanha registram-se 2,4 mortes por cada grupo de 10.000 veículos, enquanto no Brasil são 18 mortes a cada 10.000 veículos. Um número 650% maior...

Um limite de velocidade implantado em novembro de 1973, durante a crise energética, durou apenas 4 meses. Voltando a citar o jornalista José Luiz Vieira, o mesmo foi muito feliz ao afirmar que "o brasileiro dirige muito rápido na cidade e muito devagar na estrada".


Nas Autobahns, é proibido o tráfego de ciclistas, pedestres e veículos automotores incapazes de alcançar os 60 Km/h (como muitas de nossas "jabiracas”). Aliás, um assunto acaba puxando outro: lá não existem “jabiracas” nas ruas.

Explica-se: nosso amigo Tilman nos perguntou a respeito das lanternas fumês que equiparam os Santana/Quantum até 1990, que, como todos sabem, eram equipamentos originais de diversas séries especiais, como Sport, Evidence e Executivo.

Nós do SFC nos colocamos á disposição dele para enviar algumas destas lanternas para ele na Alemanha, o que foi recusado de imediato por Tilman. O motivo? Tais lanternas poderiam não passar na vistoria da TÜV (Technischer Überwachungsverein), a instituição alemã encarregada da vistoria regular de veículos, que é obrigatória para se renovar a licença de circulação pela Alemanha.


Para poder circular livremente pela Alemanha é preciso ter também a plaqueta de vistoria concedida pela TÜV. A vistoria é feita de 2 em 2 anos e junto com ela deve ser feita uma vistoria dos gases emitidos pelo carro. Após as duas vistorias, o carro receberá duas plaquetas, atrás e na frente, com as datas das próximas vistorias.

A vistoria é feita por técnicos e o laudo é concedido por um engenheiro responsável. E lá não existe “jeitinho brasileiro”, muito menos alemão: se o carro não estiver em condições, é reprovado MESMO. Segundo o relatório anual da instituição, 17,5% dos carros apresentados para vistoria em 2003 precisaram ser mandados para uma oficina antes de poder ganhar a plaquinha de renovação da licença.


Trocando em miúdos: na Alemanha não há “jabiraca” nas ruas. Lá a fiscalização é eficiente e ninguém se atreve a rodar com as “cadeiras elétricas” tão comuns no trânsito brasileiro e que são responsáveis pela maioria dos acidentes em nossas ruas e estradas. Mais uma prova de que a inspeção veicular é necessária no Brasil, com uma rígida fiscalização, para “limpar” as ruas dessas verdadeiras bombas ambulantes. Só não é implantada por se tratar de um verdadeiro “suicídio eleitoral”.
 
E para terminar, vamos falar sobre as condições das estradas. Todos sabem que o trânsito necessita de 3 componentes essenciais: carro, motorista e via pública. Quando um destes 3 componentes não funciona como deve, você está diante de um acidente em potencial.

Já falamos a respeito da formação deficiente do motorista brasileiro, já falamos das “jabiracas” que rodam em nossas ruas e agora vamos falar sobre a principal diferença na pavimentação brasileira e alemã.

Como proprietário de uma Quantum 96 com 80.000 Km rodados, estou sendo obrigado a substituir diversos componentes da suspensão, como molas, amortecedores, buchas, batentes e outros componentes literalmente “mastigados” pela precária condição de nossas ruas e estradas em 8 anos de uso.

Para total espanto de todos no SFC, Tilman nos disse que na Alemanha as molas permanecem em perfeito estado de conservação por toda a vida útil do veículo. Os amortecedores são trocados no máximo 2 ou 3 vezes neste mesmo período, e dificilmente são trocados componentes como buchas e batentes. As boas condições das estradas fazem com que a suspensão seja um item quase livre de manutenção.


Diante disto, podemos concluir que de nada adianta o governo criar normas e mais normas enquanto não investir na formação dos motoristas, na inspeção veicular obrigatória e na conservação das estradas. Nosso trânsito é mortífero simplesmente por que nenhum dos 3 componentes essenciais do trânsito funcionam corretamente, ao contrário da Alemanha, que pune os motoristas infratores, investe na sua formação e reciclagem, livra ruas e estradas de carros caindo aos pedaços e mantém ruas e estradas em perfeito estado.

 

 

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