Santana - o retrato do desleixo

Texto de Ignacio Montanha Teixeira Marques
Fotos:
Ignacio Montanha Teixeira Marques
Edição:
Thyago Szoke
Data:
21 de fevereiro de 2005

Depois que o Passat 35i 2.0 foi trocado, confesso que demorei a curtir o Santana, pela suspensão mole demais, além do câmbio que regrediu no tempo, passando a desejar em alguns momentos. O motor deixa patente a aspereza em alto giro, enquanto o do Passat girava até 6.500 rpm sem denunciar, a vantagem mais notada em relação ao modelo alemão, é a maior presteza do propulsor até umas 2.500 rpm. Temos que considerar também o menor peso do Santana - com piso molhado é normal o veículo destracionar em saídas de semáforos, curvas de esquina, subidas e outras situações; ao contrário do Passat, o Santana quando patina, exige um pouco mais de ação do motorista, principalmente pela direção hidráulica que poderia ter uma calibragem mais firme, mas tratando de um veículo familiar, isso não pode ser encarado como um defeito. O Passat deixava o motorista mais longe do comando; sendo muito filtrado, necessita de uma menor interação ao volante e proporcionava essa segurança com uma suspensão e uma direção mais firme, o que fazia o motorista andar a 150 km/h como se andasse a 110 km/h..

Os freios do Santana são bons, a tendência de travamento das rodas dianteiras é menor que no Gol, chega a ser superior ao Golf III em eficiência de frenagem e principalmente em resistência à frenagens sucessivas, graças aos discos ventilados no Santana. No entanto, o Golf permitia uma melhor modulação do pedal do freio.

Numa passagem pelo litoral de SC, pude provar o comportamento do Santana numa estrada de serra sem asfalto, coisa comum em Itapoá. Durante uma madrugada fui conhecer uma estrada; quem tiver a oportunidade de visitar, é a chamada "Estrada da Serrinha". A afinação da suspensão do Santana se mostrou muito boa para a estrada de areia com pedras, muito irregular, garantindo uma boa tração e controle, principalmente pela velocidade alcançada no trajeto; nas curvas bastava virar o volante um pouco mais rápido para que a traseira mostrasse vida; e depois desse teste, uns 50 km no total, de maneira exigente até demais, a suspensão continuou perfeita, sem ruído algum. O único lado negativo foi comprovar que a vedação é ineficiente, principalmente nas portas, pois até os pinos de travamento ficaram com marcas de poeira.

Posso dizer, após quase dois anos de experiência, que o Santana mudou minha opinião em relação à sua mecânica, comportamento e principalmente pelo prazer que proporciona ao volante; a suspensão macia até demais, não inspira confiança inicialmente, mas após um tempo você percebe que é possível fazer melhor do que aparenta. É preciso atenção apesar do veículo ser extremamente neutro; ainda é possível fazer a traseira escapar, e a suspensão não controla com eficiência a transferência de massas, com essa inclinação interferindo um pouco no volante. O contra-esterço resolve, mas após a trajetória da traseira ser acertada, a carroceria tende a inclinar para o outro lado -  se você não for o típico motorista brasileiro formado em auto-escola, que certamente acabaria pisando no freio e fazendo o veículo rodar, não terá problema algum. Outro detalhe é o acoplamento da embreagem muito rude; o pedal é macio, mas até encontrar o ponto ideal do acoplamento, vão acontecer alguns pequenos trancos. Isso não é um problema, mas tem gente que dirige o Santana aos trancos por aí; com o excelente nível de torque disponível em baixas rotações, é possível fazer a "pilotagem familiar" sem problemas e o consumo agradece.

Para finalizar, separei aqui algumas qualidades do Santana:

A manutenção barata; o motor oferece força quase instantânea; os freios são eficientes; a estabilidade e aderência são melhores do que a suspensão transmite, e a maciez excessiva poder ser melhorada a baixo custo; o consumo é bom para um 2.0. Enfim, o modelo mostra personalidade, explicando porque tantas pessoas gostam do modelo; eu que vi tantos defeitos, mudei minha opinião em relação a alguns e confesso que por um lado eu passei a gostar do Santana.

O maior problema é o acabamento interno, seria um grande feito se ocorresse uma melhora na qualidade de construção interna e na qualidade dos materiais, além de alguns detalhes externos. Visitei recentemente uma concessionária e reparei num Santana 1.8 álcool 0km que o pino da trava do motorista exibia o suporte torto.

Vejam, abaixo, alguns defeitos do Santana:

 

 


O friso do teto, que parece ser construído em alumínio, se deformou com o tempo. O Passat e também o Golf III não tinham problemas parecidos, apesar da maior idade.

O plástico de suporte do logotipo traseiro parece estar querendo fugir do veículo. É comum na linha Gol e Santana esse logotipos perderem a camada cromada em pouco tempo.
   

Além de utilizar plásticos rígidos de qualidade baixa, os encaixes imperfeitos são uma constante no interior do Santana, além das rebarbas e imperfeições. O interior do Santana não acompanhou a evolução da indústria automobilística. Os ruídos parasitas também são comuns.

Esse detalhe há 15 anos atrás seria considerado normal. Você senta no banco e quase enxerga o que tem por baixo do painel de instrumentos. Pode parecer frescura, mas nos tempos atuais isso não ocorre mais.
   

Como o Santana só veio com ar condicionado e travas elétricas, e tiveram que ser instalados os vidros elétricos, os retrovisores continuaram manuais. Vejam que a coifa do acionador do retrovisor do motorista não encaixa mais, já tentei de todas as formas e acabou saindo.

Mas isso não acontece só na porta do motorista - na do passageiro também, o que significa que isso é um defeito crônico, as coifas simplesmente saem do encaixe original, sendo impossível mantê-las no lugar de origem.
   
                             
Isso ocorre no porta-malas do Gol também. Você tira o carpete e aparecem alguns furos no porta-malas. Até aí normal, mas se você notar, esses buracos são tapados com uma fita adesiva semelhante à um esparadrapo. No Golf e no Passat, esses buracos  eram tapados com umas cobertura espessa e com uma cola que você só tirava com alguma ferramenta à mão.
   

Os mesmos pára-choques que deixaram o Santana mais feio, também deixaram notório principalmente na traseira, um defeito perfeitamente visível até uns 2 metros de distância.
A foto mostra o lado direito, mas o lado esquerdo é idêntico.
   
                             
Para finalizar, o Santana 1999 já tem ferrugem, apesar de nunca ter vivido em regiões litorâneas.
Conversando com um amigo, ele me relatou problemas do tipo e disse que isso acontece com freqüência nesse local da carroceria.

   

A Volkswagen do Brasil deveria prezar mais pela qualidade de um produto que já está no mercado há duas décadas e que, por isso, deveria ter todos os seus problemas e falhas já solucionados. O Santana é um raro exemplo de carro que tem o potencial para ser bom em tudo, mas que fica preso num pacote básico de equipamentos. O carro não só pode como deve ser melhor acabado e equipado.

 

 

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